Resenha – O Exorcista – William Peter Blatty

Acabei de ler O Exorcista de William Peter Blatty e gostei. A história é bem dinâmica e explora bem o lado psicológico dos personagens. Se a menina foi ou não possuída pelo demônio é algo que o autor deixa em aberto para você decidir por si mesmo de acordo com as suas crenças, pois ao longo de todo o livro através do padre Damien Karras, você recebe informações de que a possessão é mentira, de que se trata de inúmeras possíveis doenças mentais muito complexas que atinge pessoas sucetíveis a isso, somente quando o padre Merrin chega na história, o verdadeiro exorcista, que começa-se a se referir a Regan como demônio, antes disso o autor chama ela de a criatura Regan, a criatura ou simplesmente Regan.

Tem passagens engraçadas ao longo do livro e ele de fato não é nada aterrorizante, a leitura é simples, mas o livro foi muito bem escrito, deixando algumas brechas na história aqui e ali que aos poucos vão sendo preenchidas.

Poderia ser também descrito como um livro policial visto que o personagem do detetive tem uma participação grande e praticamente sozinho consegue decifrar o mistério envolvendo a primeira morte que acontece, apesar de não querer acreditar no que descobre. Karl o empregado, também é um personagem importante na história e pode-se dizer que é através dele que o detetive decifra a maior parte dos mistérios.

As aparições da entidade são poucas considerando que no filme ela é a estrela principal, mas todas são chocantes, inteligentes, com diálogos muito bem construídos e porque não dizer engraçados, dependendo do ponto de vista que se olha. Através dela, você descobre o que se passa no interior dos personagens que sequer eles deixam à mostra, como por exemplo a “quedinha” que o padre Damien e a professor de Regan tem um pelo outro, a culpa que o padre Damien carrega por sua mãe, alguns dos aspectos familiares de Karl e sua esposa, o passado do padre Merrin, etc. Apesar de não ser o persongem principal da história, é em torno dela que a grande ação acontece.

Uma coisa a se notar é a naturalidade com que os habitantes da casa lidam com a situação, até mesmo Chris a mãe de Regan. Exceto ela, todos continuam com as suas rotinas. Chris sofre muito, mas sua participaçãoo chega a comover, há casos de mães muito mais preocupadas do que ela na literatura. Fica-se com uma vaga impressão de que ela só quer que aquilo acabe para voltar ao seu mundo de estrela de cinema, eu vi Regan tratada como um bibelô, quase como um bichinho de estimação por Chris, isso fica claro imediatamente quando a criança é libertada, uma mãe que viu o que ela viu, que sofreu com a ausência da filha por tanto tempo, poderia ser mais explícita e dedicada em seu amor ao “rever” a criança, mas isso não é demonstrado no livro.

A história é intensa, fala de fé, força, fraqueza e a beleza das relações entre mãe e filho. Damien Karras é um filho que sente culpa por ter abandonado sua mãe para seguir a carreira eclesiástica. Ele teve uma infância com muitas privações e apesar de ser taxado como fraco e de pouca fé por outras pessoas, pela entidade e por si mesmo, ele é altruísta e abnegado, você quase sente o cansaço físico dele após as longas sessões de exorcismo sem descanso. É um personagem muito cativante, é fácil gostar dele, ele é uma pessoa capaz de dizer não e assume a responsabilidade pelo caso de Regan, é muito culto e humilde.

No início, ele reluta para aceitar que a menina está de fato possuída mas não por falta de fé, e sim porque foi condicionado à isso, porém apesar de sua ‘descrença” ele faz de tudo para encontrar uma prova da possessão para poder levar o caso de Regan ao clero e assim poder de fato executar o exorcismo. Apesar de não ter sido um filho exemplar, ele é um bom “pai”, provendo à família o que de fato eles precisam. Ele é ingênuo e cai nas armadilhas da entidade, fazendo tudo o que o especialista em exorcismo, o padre Merrin, não faria. Mas isso ao invés de fazer com que fiquemos com raiva dele nos aproxima, pois assim comoo restante dos humanos, ele também não sabe como lidar com aquilo, assim como todos nós não saberíamos.

o padre Merrin aparece pouco, mas é um personagem profundo, um homem que conquistou fama com seu intelecto e isso é largamente usado contra ele pela entidade, mas depois de conforme as palavras dele mesmo, ele ter cometido o pecado da vaidade, considerando os outros homens como inferiores a ele por não terem o mesmo nível de conhecimento, ele encontra a paz servindo ao mundo com a sua sabedoria. Seu fim chega a ser ridículo, tamanha a grandiosidade e esperança que a sua presença traz para a história, mas é através dele que a verdadeira fé e heroísmo manifesta-se em Damien.

Minha opinião pessoal a respeito de O Exorcista como um todo é que o filme exagerou claramente em muitas coisas com o intuito de aterrorizar e chocar o público. Mas o livro é muito mais orgânico e sutil, dando mais credibilidade à história, ele faz pensar que se assim acontecesse, seria daquele jeito que as pessoas agiriam. Pensei que ficaria mais assustada, mas não fiquei e espero não ficar no futuro. O livro é gostoso de ler, te prende do início ao fim, não tem enrolação, a história é densa, mas tudo acontece num ritmo intenso. Não te faz acreditar mais ou menos em Deus ou no diabo, não tenta explicar coisas inexplicáveis, é uma história contada de um jeito nu e crú que merece todo o louvor e pavor dedicado à ela.