Crônica – Manual da Beleza Falível – por Pedrina Lisboa

Laura estava especialmente ansiosa naquela tarde. Devorava uma barra de chocolate atrás da outra, enquanto os olhos passeavam freneticamente pelas páginas que pesquisava na internet. Qual o corte de cabelo ideal para esse inverno? Qual a cor que você precisa ter no seu guarda roupa? Como perder 10 kilos em uma semana? Essa era a temática da sua pesquisa naquela tarde.

Alvaro rejeitou Laura. Não deu motivos, simplesmente rejeitou. E Laura, mesmo sem saber se era esse o motivo, colocou na sua cabeça que era devido a sua aparência. Ela sabia que estava gorda. Então tingiu o cabelo, parou de comer, matriculou-se em uma academia e resolveu tirar mestrado em beleza e estética através da internet, dada a  quantidade de tempo que passava pesquisando sobre esse assunto. Não questionava as fontes e nem a veracidade. Simplesmente fazia tudo o que prometia os resultados mais rápidos.

E assim foi. Seis semanas depois de parar de comer, tomando apenas shakes miraculosos e chás diuréticos, Laura perdeu 25 kilos. Mas não eram 25 kilos somente de gordura, junto Laura perdeu músculos e outras coisas essenciais que ela nem sabia. Laura ficou flácida, pálida e apática. seu cabelo caiu, o rosto ficou chupado. Desmaiou e passou mal tantas vezes no trabalho que acabou sendo dispensada. Sem forças para ir a academia, pagou as mensalidades à toa.

Mas Laura estava magra, isso era a única coisa que importava.

Ligou para Alvaro e pediu para se encontrarem, ele, muito simpático e cruel concordou em se encontrar com ela no barzinho em frente à faculdade. Laura colocou um vestido justo e saltos altos. Um aplique loiro resolveu o problema do cabelo murcho, carregou na maquiagem esse foi, ao som de assobios e buzinadas chegou ao barzinho.

Quando chegou, Alvaro já a aguardava. Sentado em uma mesa, tomando cerveja. Ao seu lado uma garota. Mais jovem, mais bonita e com certeza poderia ser classificada como gorda, ou pelo menos gordinha, “cheinha”.

Laura não entendeu nada. ela estava magra, estava sexy. Por que Alvaro não a queria? Por que Alvaro preferiu a gordinha? Laura se lamentou, mas de nada adiantava chorar por mutilar-se a si mesma guiada por falsos manuais.

 

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Crônica – Miojo com ovo – por Pedrina Lisboa

Um miojo comum após pronto tem aproximadamente 370 calorias, 50 gramas de carboidratos, 8 gramas de proteína e 15 gramas de gordura. Um ovo cozido tem 80 calorias, 6 gramas de gordura e 6 gramas de proteínas e mais algumas vitaminas. Esse não é o mais nutritivo dos pratos, mas foi isso que sustentou José durante muito tempo em tempos de crise econômica no Brasil.

José e eu somos muito parecidos. Somos mulatos, filhos de mãe faxineira, estudamos em escola pública e só comíamos bolacha recheada e danone em dia de pagamento. Crescemos e cada um tomou seu rumo. Eu tive algumas oportunidades e hoje posso servir danone com mais frequência aos meus filhos. Mas José não. Eu não sei se ele não teve nenhuma oportunidade, ou se despediçou as que teve, mas hoje, José repete o mesmo ciclo de pobreza que vivenciou na infância.

No dia em que meu caminho cruzou com o de José estávamos almoçando no mesmo lugar. Atarefado como sempre eu liguei no restaurante mais próximo e pedi que me entregassem o prato do dias às 13h30. Apressado, comi discutindo pelo lap top a pauta da reunião seguinte com o meu chefe. José também almoçou naquele mesmo horário, mas diferente de mim ele preparou seu almoço ele mesmo. Em um pote de plástico colocou o seu miojo sabor frango, cobriu com água e quebrou um ovo por cima. Intrigado eu observei que nunca havia visto ninguém preparar seu miojo daquela maneira. José riu e seu nariz se alargou no rosto, colocou a mistura no microondas e cruzando os braços na altura do peito respondeu simpático e educadamente: “Eu sempre como assim”.

Eu sempre como assim. Essa frase me castigou durante a tarde toda, depois à noite, e pelos dias que se seguiram. José come sempre assim, sempre do mesmo jeito, sempre o mesmo miojo com ovo que não fornece todos os nutrientes que um homem adulto precisa para enfrentar o trabalho braçal.

A noite eu chorei pensando em José. Pensei que se a única refeição que ele podia fazer durante o almoço era um miojo com ovo, imagina o que ele teria para comer em casa? Será que José tinha algo para comer em casa? Será que José tinha filhos famintos aguardando o dia do pagamento para comer bolacha? E se no dia do pagamento José só conseguisse levar o essencial para casa? Eu me senti muito angustiado por José.

José e seu miojo com ovo me assombrou durante semanas. Mas corrupto e covarde como sou eu não consegui abordá-lo, perguntar se ele precisava de algo. Eu tive medo de José. Tive medo que ele me respondesse que precisava de comida para dar aos seus filhos. Então imaginei que José fosse um espião de uma empresa concorrente e disfarçado de faxineiro coletava informações cruciais para ganhar nossa concorrência. Pensei que não era possível alguém sempre se alimentar de maneira tão precária como José e continuar acordando cedo para trabalhar limpando a bosta de pessoas que sequer dão bom dia para ele. Imaginei que José era rico e próspero e que só por esporte trabalhava, afinal, o trabalho dignifica o homem.

Então um dia, assistindo o jornal, o mistério de José foi resolvido. O Ministro da Fazenda do atual governo dizia que uma das maneiras de solucionar o problema do poder de compra do salário do brasileiro que estava sendo corroído pela inflação era simples: “ Não comam carne, comam ovo!”. Então é isso, pensei aliviado. José só está cumprindo a parte dele! José está ajudando o Brasil! José está comendo só miojo com ovo para nos ajudar.

O Brasil é o país de todos! Viva Dilma! Viva Lula! Viva José!

Crônica – Vários Idiomas – por Pedrina Lisboa

Eu senti medo. Não foi a primeira vez e com certeza não será a última mas dessa vez foi um medo diferente, meio dolorido.

As coisas acabaram. Eu digo as coisas porque não foi só a nossa relação. Foi tudo. Acabou o desejo, a vontade, a angústia, a saudade, nós acabamos.

Meu medo foi de perdê-lo, mas isso já estava consumado, meu medo foi de não aguentar, mas eu sabia que aguentaria, meu medo foi de fazê-lo sofrer, mas isso era inevitável. Chegou em um ponto em que era eu ou ele. O “nós” tornou-se impossível. Eu já não existia mais estando ao lado dele, e por estar tanto tempo juntos eu estava me desfarelando.

Eu sempre vou  me  lembrar do nosso primeiro beijo, regado à cerveja e micro partículas de amendoim. Seu abraço e o cheiro que ele deixava impregnado em mim após me amar. As intermináveis discussões sobre espirais, quarta dimensão e vôos rasantes. Só nós entendíamos o nosso vocabulário. Tinha de tudo um pouco, português, inglês, japonês, alemão e até “gatês” que é a língua dos gatos. Ultimamente eu estava tentando introduzir o holandês, mas ele já não entendia o que eu tinha pra dizer. Acho que foi nesse ponto que percebi que já havia acabado.

Se eu disser que ainda o amo ele vai acreditar? Porque necessariamente tenho que estar presas à correntes douradas que o padre abençoou para fazer valer minhas palavras? Eu posso amá-lo à distância? Torcer por ele? Posso espiá-lo de longe e me enternecer com seus tons esverdeados que brilhavam ao sol? Ele vai se expor ao sol ainda? Ele vai tentar? Ele vai vencer? Ele vai viver?

Eu me preocupo tanto que penso que devo continuar por perto cuidando dele. Mas e eu? Quem cuida de mim? Agora que sou adulta não devo esperar por outras pessoas. Não devo e não quero. Meu ego me engana e eu me engano nessas palavras.

Crônica – Aguardando – por Pedrina Lisboa

Entrego a carteirinha do convênio, sento e aguardo. Olho ao redor e vejo pessoas também sentadas aguardando. Em sua maioria são mulheres: jovens, maduras, idosas, adolescentes. Todas aguardam.

O médico sai da sala, despede-se da paciente, uma mulher bem vestida, cabelos curtos e bem tingidos, o sorriso nervoso, forçado. O olhar ressentido. A face artisticamente pintada tenta esconder as marcas de uma vida mentirosa. Ela pensa que me engana com suas roupas de luxo, mas ela é só uma pobre coitada, que, assim como eu, acreditava que se fizesse tudo certinho, no final tudo daria certo. Mas não deu. E agora lá está ela, buscando pelo sexto mês consecutivo a receita para antidepressivos. Como se por acaso as minúsculas pílulas brancas fossem ser capazes de fazê-la esquecer as traições do marido, a rejeição da filha adolescente, a morte do pai que partiu sem dar a ela a chance de uma primeira e última conversa esclarecedora.

Tantas ilusões de que um mero comprimido possa resolver tudo. Mas ele não resolve. Ela sabe disso, mas para quem já não tem mais nada em que acreditar, até mesmo uma mentira serve.

A mulher deixo consultório e o médico analisa a próxima fica. Olhando por cima dos óculos esse homenzinho arrogante de um metro e sessenta pensa que sabe de muita coisa. Pobre diabo. Passou dez anos estudando para se tornar um mero receitador de drogas legalizadas à senhoras desesperadas.

Ele lê o nome na ficha e olhando ao redor observa quando eu levanto e me dirijo até ele. Em meu pensamento eu dou-lhe um no meio da cara e quebro uns dois ou três dentes, mas assim como a outra pobre coitada eu sorrio. Forçadamente. Falsamente. Eu sou tão miserável quanto ela.

Entramos no consultório e ele já deveria saber meu nome, mas pergunta de novo. Sem nem me olhar pergunta como estou. Eu digo que só naquele dia matei três, xinguei meu chefe e traí meu marido com o primeiro que apareceu. Mentira, eu falo a verdade. Que o remédio é uma maravilha, que estou calma e feliz como nunca. Mas a verdade que falo também é uma mentira. No meio de tanta hipocrisia eu já não distinguo verdade de mentira, sonho de pensamento, filme de livro, ou conversa que eu tive com conversa que eu ouvi ou imaginei.

O médico faz uma piadinha sobre como ele estava certo e nesse momento uma bazuca atingi-lhe a cabeça esparramando os seus miolos na parede detrás onde está pendurado o seu diploma. A voz rançosa dele me tira do devaneio e eu vejo que infelizmente a sua cabeça ainda está intacta.

Nesse momento ele está dizendo que sou uma mulher de sorte e me diz entregando duas caixas do medicamento que me receitou. Ele assina o atestado e me pergunta se eu preciso de algo mais. Nesse momento o sorriso forçado vai embora e eu reclamo que esperei duas horas para ser atendida, ele se desculpa a marca o retorno. Eu levando guardando caixas, atestado, frustrações, raivas e tudo o que posso na minha bolsa furada.

Ele se levanta e me dá um sorriso tão forçado quanto o meu, abre a porta e eu saio. Eu penso que próxima vez vou falar a verdade sobre tudo. Então eu aguardo. Na próxima consulta eu falarei tudo. Eu penso, sento e aguardo.