Memórias – Sobre Bono Vox, sabres de luz e Tele Sena

Minha vovó faleceu há dois anos, mas só agora consigo falar sobre isso. Lembro que na ocasião minha mãe me ligou avisando enquanto eu assistia a um filme doido em que um cantor frustrado tentava matar o Bono, o filme não era grande coisa e escolheram um ator muito feio pra fazer o papel de Bono, de acordo com os meus critérios.
Foi a primeira notícia relevante sobre morte que eu recebi e eu não entendi direito, mas também alguém pode avisar que não se deve usar os termos “parece que” quando for dar uma notícia assim?
-Pê, parece que a vó morreu.
Mas como assim parece? Se você ouvir algo do tipo, logo você vai pensar que não aconteceu de fato, ninguém morreu. Mas eu perdôo a DS, porque afinal era a mãe dela.
Só que o mais extraordinário de uma  notícia assim é que apesar de ser uma verdade universal, a gente sempre acha que algumas pessoas estão acima dessa regra. No meu caso eu nunca havia pensado na possibilidade de minha vó morrer porque ela sempre esteve lá. Antes de eu nascer, antes mesmo dos meus pais nascerem ela já estava lá. É como se quanto mais velha a pessoa vai ficando,  mais imune à  morte ela vai ficando também,  afinal ela já passou por muita coisa.
Eu pausei o filme e fui falar com o Andrios.
-Nossa amore, parece que minha vó morreu.
– Como assim parece?
Tá vendo? Eu também fui reprovada. Acertamos tudo para ir ao enterro no dia seguinte.
Enterro é um negócio engraçado. Ninguém chora até o momento em que vê o morto no caixão. Lembro que nos reunimos na casa do meu tio que é o filho mais velho dela e fizemos um almoção, bebemos cachaça pra esquecer, rimos por que era isso o que ela gostaria e rolou um samba também porque é de praxe. Depois veio aquela fase deprê em que todos começam a lembrar das coisas que o morto fez em vida. Com isso eu descobri que ninguém sabia exatamente a idade dela, chegaram à  conclusão que era algo em torno de 63 a 82 anos. Isso porque no sertão da Bahia quando eles iam registrar os filhos, esperavam nascer vários pra compensar a  viagem e nessa o primogênito perdia uns 10 ou 15 de idade. No caso da minha vó foi logo uns 19.
Nesse momento eu comecei a entender o que estava acontecendo. Nunca mais eu comeria a comida da minha vó. Meu deus, aquele tempero! Lembrei das coxinhas com 0,3 cm de espessura de massa crocante e aquele monte de frango temperado com o axé da Bahia. O macarrão com frango assado. Os geladinhos! Minha vó deve ter sido a precursora do geladinho feito com fruta de verdade. Era goiaba, coco queimado, manga e o de chocolate? Gente pensa em algo preto, bem preto e doce de tanto Toddy que ela colocava.
-Nescau é  fraco. – Ela dizia.
Eu, meus irmãos e primos vivíamos constantemente roubando os geladinhos da vó. Rolava umas missões secretas pra ver quem tinha coragem de atravessar a sala cheia de adultos e ir com o saco até a cozinha, encher de geladinho e depois passar por eles como se nada tivesse acontecido. Daí quando aparecia algum cliente querendo comprar geladinho, sim porque ela vendia a 10 centavos cada, mesmo que valesse 10 vezes mais, minha vó se espantava:
– Mas esses geladinhos estão sumindo? Eu fiz 87, agora só tem 14?
A gente rachava de rir e escondia os sacolés  vazios.
Lembrei que quando passávamos a noite lá ela sempre fazia chá pra gente antes de dormir. Tinha alho, gengibre, guaco, mel.
-Credo vó, não vou tomar esse chá não, o que que tem aqui?
-Tem tudo! – ela respondia brava.
-Até feijão?
Ficávamos rindo com as piadinhas e planos para o dia seguinte e o meu vô chiando lá do quarto. Só que sempre tinha um espertinho que começava a contar histórias tenebrosas de assombrações e coisas do mal, até que as piadinhas viravam gritinhos e choros de medo. Então nesse momento minha vó aparecia com o seu sabre de luz e derrotava toda sorte de sacis, bruxas, mula sem cabeça, discos voadores e fantasmas.
-E calem a boca e vão dormir seus meninos!
Minha vó que deve ter ganhado umas mil vezes na Tele Sena. Ela não conseguia anotar os números porque o Lombardi falava muito rápido.
-Ô Pê, vai lá anotar pra mim vai.
Então com raiva por ter que abandonar a brincadeira pulávamos alguns números e anotávamos outros que nem tinham saído.
-A senhora não ganhou não, madame – o moço do guichê falava.
– Mas o número ta marcado aqui.
– Esses números não foram sorteados.
– Ah esses meninos…
A vó tinha um jeito todo especial também de falar da profissão das pessoas. Para ela toda profissão honesta tinha o seu valor.
– Ele ajuda as pessoas a encontrar o que elas precisam.
-Que emprego é esse?
-Repositor de mercadorias no supermercado.
-Ele divulga oportunidades de negociação de metais e jóias preciosas.
-Hã?
-Ele fica na  praça com a plaqueta de compro e vendo ouro.
Era assim, ela dava nomes importantes para as tarefas mais simples e não importa o tipo de trabalho que a pessoa fazia, ela sempre o exaltava.
Lembro quando ela conheceu o Andrios.
– Mas que moço bonito, parece um ator de Hollywood!
-Qual ator vó? Tem tantos.
-Não sei o nome,  é aquele que fez o filme da polícia.
E com isso ela reduzia a praticamente todos os atores bonitos que já existiram.
Minha vó não era do tipo que dava lição de moral na gente. Ela não precisava. Lembro que ela foi analfabeta a vida toda e com mais de 60, ou 70 anos dependendo do RG, ela aprendeu a ler e escrever com o pessoal da igreja e com isso mostrou que não existe limite de idade pra nada e se você quiser, você realmente consegue alcançar qualquer coisa.
Essa foi minha vó, ela começava com uma bronca e terminava dando um real.
– Vai lá comprar bala, vai.
– Não, eu prefiro 10 geladinhos.
Negociação falha, eu ganhava 1 geladinho só. Mas mantinha o um real.
Minha vó que foi mãe duas vezes e pai tantas outras. Me alimentou, me educou, me deu limites. Que trazia a  mala cheia de ambrosia no trem lotado quando vinha nos visitar. Que foi tão foda, mas tão foda que cuidou de tantos bebezinhos rejeitados e quando a criança estava bem feliz, alimentada e segura a mãe arrependida voltava para pegá-la e minha vó devolvia o bebê sem reclamar. Depois a noite ela chorava em silêncio. Essa foi a Dona Santinha, apelido que ganhou no bairro por ser como ela era, boa e abnegada, uma santa no sentido estrito da palavra.
Depois do enterro eu voltei pra casa, não chorei feito louca, confesso. Eu estava em paz com a minha vó, ás vezes aquele teatro de choradeira sem fim revela um assunto inacabado, mas nós não tínhamos nada inacabado, eu vivi o tempo que vivi com a minha vó sem arrependimentos.
Ela sempre dizia: “Se não acabou bem é porque não acabou”. Então eu penso que se os seus 63 ou 82 anos de vida foram bem vividos, então acabou bem sim, ela foi feliz.
Liguei a TV e continuei o filme de onde parei, no final das contas o Bono não morreu e virou o astro que virou. Seu algoz se tornou seu amigo e hoje trabalha na equipe de som dele. Desliguei a TV e fiquei pensando: “Parece que essa história aqui também acabou tudo bem”.

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2 pensamentos sobre “Memórias – Sobre Bono Vox, sabres de luz e Tele Sena

  1. Que texto é esse que me dá vontade de reler sempre? Tem agilidade, verdade e tanto amor, que é como se eu tivesse tomado um café com a sua avó. Parece que eu a conheci! Parece…

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