Crônica – Aguardando – por Pedrina Lisboa

Entrego a carteirinha do convênio, sento e aguardo. Olho ao redor e vejo pessoas também sentadas aguardando. Em sua maioria são mulheres: jovens, maduras, idosas, adolescentes. Todas aguardam.

O médico sai da sala, despede-se da paciente, uma mulher bem vestida, cabelos curtos e bem tingidos, o sorriso nervoso, forçado. O olhar ressentido. A face artisticamente pintada tenta esconder as marcas de uma vida mentirosa. Ela pensa que me engana com suas roupas de luxo, mas ela é só uma pobre coitada, que, assim como eu, acreditava que se fizesse tudo certinho, no final tudo daria certo. Mas não deu. E agora lá está ela, buscando pelo sexto mês consecutivo a receita para antidepressivos. Como se por acaso as minúsculas pílulas brancas fossem ser capazes de fazê-la esquecer as traições do marido, a rejeição da filha adolescente, a morte do pai que partiu sem dar a ela a chance de uma primeira e última conversa esclarecedora.

Tantas ilusões de que um mero comprimido possa resolver tudo. Mas ele não resolve. Ela sabe disso, mas para quem já não tem mais nada em que acreditar, até mesmo uma mentira serve.

A mulher deixo consultório e o médico analisa a próxima fica. Olhando por cima dos óculos esse homenzinho arrogante de um metro e sessenta pensa que sabe de muita coisa. Pobre diabo. Passou dez anos estudando para se tornar um mero receitador de drogas legalizadas à senhoras desesperadas.

Ele lê o nome na ficha e olhando ao redor observa quando eu levanto e me dirijo até ele. Em meu pensamento eu dou-lhe um no meio da cara e quebro uns dois ou três dentes, mas assim como a outra pobre coitada eu sorrio. Forçadamente. Falsamente. Eu sou tão miserável quanto ela.

Entramos no consultório e ele já deveria saber meu nome, mas pergunta de novo. Sem nem me olhar pergunta como estou. Eu digo que só naquele dia matei três, xinguei meu chefe e traí meu marido com o primeiro que apareceu. Mentira, eu falo a verdade. Que o remédio é uma maravilha, que estou calma e feliz como nunca. Mas a verdade que falo também é uma mentira. No meio de tanta hipocrisia eu já não distinguo verdade de mentira, sonho de pensamento, filme de livro, ou conversa que eu tive com conversa que eu ouvi ou imaginei.

O médico faz uma piadinha sobre como ele estava certo e nesse momento uma bazuca atingi-lhe a cabeça esparramando os seus miolos na parede detrás onde está pendurado o seu diploma. A voz rançosa dele me tira do devaneio e eu vejo que infelizmente a sua cabeça ainda está intacta.

Nesse momento ele está dizendo que sou uma mulher de sorte e me diz entregando duas caixas do medicamento que me receitou. Ele assina o atestado e me pergunta se eu preciso de algo mais. Nesse momento o sorriso forçado vai embora e eu reclamo que esperei duas horas para ser atendida, ele se desculpa a marca o retorno. Eu levando guardando caixas, atestado, frustrações, raivas e tudo o que posso na minha bolsa furada.

Ele se levanta e me dá um sorriso tão forçado quanto o meu, abre a porta e eu saio. Eu penso que próxima vez vou falar a verdade sobre tudo. Então eu aguardo. Na próxima consulta eu falarei tudo. Eu penso, sento e aguardo.

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